NEGÓCIOS
Afastamentos por saúde mental acendem o alerta nas empresas
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, 546.254 benefícios.
Em 12/08/2026 Referência CORREIO CAPIXABA - Redação Multimídia
Foto: Fabricio Lima/Divulgação/ASES
O número de benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais registrado em 2025 foi o maior da série histórica da última década, e motivou o debate sobre riscos psicossociais, produtividade e gestão durante o Café de Negócios da Ases.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, exatos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, o que representa um aumento de 15,66% em comparação com o ano de 2024 e um recorde na série histórica da última década.
O tema foi foi abordado pela psicóloga e mestre em Gestão de Pessoas, Sátina Pimenta, durante a 236ª edição do Café de Negócios (Caneg) da Associação dos Empresários da Serra (Ases), realizado nesta quarta-feira (12). O encontro reuniu empresários, gestores e lideranças para discutir como os riscos psicossociais podem afetar produtividade, custos, relações de trabalho e sustentabilidade dos negócios.
O número acendeu um alerta para empresas sobre os efeitos do adoecimento mental no ambiente de trabalho. Entre os principais fatores de impacto estão custos com recrutamento e seleção, integração de novos profissionais, perda de produtividade, afastamentos e desligamentos.
De acordo com Sátina Pimenta, a gestão empresarial precisa atuar antes que esses fatores resultem em consequências maiores.
“Quando falamos de riscos psicossociais, não estamos falando apenas de saúde e bem-estar. Estamos falando de produtividade, lucratividade e sustentabilidade do negócio. O papel da empresa não é eliminar os problemas pessoais dos funcionários, mas garantir que o ambiente de trabalho não seja um produtor de adoecimento. Por isso, é preciso identificar os riscos, avaliar, intervir e acompanhar.”
Segundo a psicóloga, o objetivo não é eliminar todos os riscos existentes no ambiente de trabalho, mas identificar, avaliar, priorizar, intervir e monitorar. A especialista também ressaltou que a empresa não deve ser responsável por resolver problemas pessoais dos funcionários, mas precisa evitar que o próprio ambiente profissional seja um fator de adoecimento.
Desafio
O avanço dos afastamentos reforça a dimensão do desafio. Em 2025, somente ansiedade e depressão responderam por mais de 293 mil afastamentos no país, com 166.489 licenças relacionadas a transtornos de ansiedade e 126.608 a episódios depressivos.
A diretora Comercial e de Marketing da Up Health, Karol Cavêdo, apresentou medidas adotadas pela empresa para transformar a gestão dos riscos psicossociais em prática cotidiana. Entre as ações estão o mapeamento dos riscos, a criação de comitês, o envolvimento de diferentes áreas e o acompanhamento das medidas implementadas.
Para Karol, a responsabilidade sobre a gestão dos riscos psicossociais é de toda a empresa, que envolve líderes, gestores e diferentes áreas.
“A gestão dos riscos psicossociais não pode ficar restrita ao RH. É uma responsabilidade de toda a empresa, que envolve líderes, gestores e diferentes áreas. Precisamos identificar os riscos, planejar as ações, implementar, acompanhar e, principalmente, registrar e evidenciar tudo o que está sendo feito. A cultura da empresa é construída pelos comportamentos que ela tolera, reconhece e repete.”
Ainda de acordo com a executiva, é preciso implementar um plano de ação que permita acompanhar e registrar tudo o que está sendo feito.
“Não basta identificar o risco e criar um plano de ação. É preciso implementar, acompanhar e registrar tudo o que está sendo feito. Quando falamos de riscos psicossociais, evidenciar essas medidas é fundamental para mostrar que a empresa não apenas reconheceu o problema, mas está efetivamente trabalhando para gerenciá-lo e reduzir seus impactos.”
Erly Vieira, CEO da Le Card, reforçou a importância de compreender as pessoas dentro das organizações. Para ele, empresas que dependem diretamente do relacionamento entre profissionais precisam desenvolver uma cultura de escuta e compreensão dos colaboradores.
“Nós trabalhamos diretamente com pessoas e, por isso, precisamos entender de gente. Ouvir, compreender e estar atento ao que os colaboradores estão vivendo é fundamental para construir um ambiente de trabalho mais saudável. Debates como esse nos ajudam a refletir sobre como podemos melhorar a gestão e as relações dentro das empresas.”
Debate
O debate ocorreu em meio às discussões sobre a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que inclui os riscos psicossociais entre os aspectos relacionados à gestão de saúde e segurança no trabalho. A discussão sobre o tema reforça que saúde mental deixou de ser exclusivamente uma pauta de bem-estar e passou a fazer parte da gestão de riscos, da produtividade e da sustentabilidade empresarial.
Na avaliação do presidente da Ases, Leonelle Lamas, o debate também precisa considerar a forma como a rotina profissional tem sido conduzida. Ele defendeu uma reflexão sobre o excesso de compromissos, cobranças e velocidade no dia a dia.
“Sim, precisamos tratar de negócios e cuidar das empresas, mas é importante desacelerar. Cuidar da saúde mental também é cuidar da sustentabilidade das empresas. Precisamos aprender a desacelerar, valorizar as pessoas e entender que resultados consistentes não são construídos apenas com metas e números, mas também com relações mais saudáveis e com qualidade de vida.”
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